quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Simone de Beauvoir hoje faria 106 anos, mas ainda é muito atual


      No dia em que o Google homenageou o 106º aniversário de Simone de Beauvoir, a citação não passou despercebida. Muita gente entrou no clima e fez sua menção nas redes sociais. Nascida em 1908, na França, Simone iniciou sua carreira como professora, seguindo como escritora, filósofa existencialista, assim como seu companheiro Jean Paul Sartre, e um dos principais ícones do feminismo no mundo.

      Simone ensinou que não se nasce mulher, torna-se mulher. Chamou para as mães a responsabilidade de repetir os padrões machistas de uma sociedade, ao afirmar que esses valores são repassados por elas juntamente com o leite materno.

      Escreveu ensaios, romances, monografia e até autobiografia. Mas foi com O Segundo Sexo, obra em dois calhamaços, volume I e II, que emplacou suas ideias revolucionárias e filosóficas sobre a condição da mulher, categoria título de seu livro, já que o primeiro sexo, de acordo com os valores da sociedade, no entender da autora, seria o homem.

      A obra foi lançada em 1949 e faz uma abrangente análise sociológica, com riqueza de detalhes históricos e argumentos bem fundamentados, onde desconstrói o biologicismo do feminino e aponta que tudo é uma questão de construção social e histórica. E de decisão.

      À época em que foi escrito, a mulher ainda se encontrava sob o jugo masculino, porém já com fortes indícios de participação ativa como força de trabalho e também na vida intelectual. Apesar de muitos referenciais terem mudado de lá para cá, a leitura ainda é muito atual, pois não é raro filhos e filhas terem tratamentos distintos dentro de um mesmo lar. Como também não é raro ainda se ouvir a frase ”mas ele pode, porque ele é homem”.

      Mulher pegadora ainda é piranha. Homem pegador ainda é garboso. O leite pode ter ficado um pouco mais ralo, mas ainda continua sendo a maior fonte de energia para que toda essa ignorância seja perpetuada. Leitura recomendada, principalmente para as mulheres que desejam ser mães.


domingo, 29 de dezembro de 2013

SIM, EU PRECISO!

“Investigue o motivo que o impele a escrever: Comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se morreria caso fosse proibido de escrever. Pergunte a si mesmo, na hora mais silenciosa da madrugada: “Preciso escrever?” Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples “Preciso”, então construa sua vida de acordo com tal necessidade.” 
Rainer Maria Rilker em Cartas a um jovem poeta.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Da Santa Ceia para o roteiro

         Há anos não assistia novelas. Fazendo bem as contas, a última foi O Clone, em 2001. Não por esnobismo intelectual, mas porque elas viciam mesmo e, quando você vê, já são oito, dez meses de noites e noites a fio. Confesso que comecei a assistir Amor à Vida por conta do deus grego Mateus Solano (adooro!). E permaneci por conta do impagável Félix e seu humor negro. Personagem tão polêmico quanto carismático.

      Entretanto, o que observo é que as temáticas são diferentes, mas todas as novelas globais precisam seguir uma fórmula que, infelizmente, faz sucesso com os telespectadores: um dos takes indispensáveis é a surra que alguém vai dar em alguém. Essa inclusive é capa e garante boa tirada em revistas de TV. O outro item que, ao meu ver, está começando a azedar a trama é a VINGANÇA, em caps lock mesmo. Não por ela em si, mas pela mão pesada no ingrediente, com direito a chamada quase conclamando o telespectador a fazer o mesmo. Vou observar os próximos capítulos para poder concluir se foi o Félix que salgou a Santa Seia ou se foi o Carrasco que salgou seu próprio roteiro.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A VIDA NUM MODAL DE 46 LUGARES

Quem anda de ônibus quase nunca está sozinho. Ando relativamente satisfeita com meu novo modal para ir ao trabalho. Modal, porque preciso usar um palavreado in, e relativamente, porque o ônibus no Brasil ainda é um dinossauro que precisa evoluir.

Retornando ao contentamento, a viagem no dito já começa na parada, enquanto observo o pessoal. Meu gosto específico é pelos adolescentes, que reconheço de longe, pois normalmente andam em bando. Ô gente descolada! Minha atenção apura na linguagem, mais corporal do que verbal. Entre um mascado de chiclete e outro, soltam duas palavras que são rapidamente entendidas pelo outro, e percebo que significaram um parágrafo inteiro, tá ligado?

Outro atrativo é a facilidade com que as pessoas chegam e falam de suas vidas. Sem maiores pudores, sem maior cerimônia. Semana passada, sentei ao lado de uma moça que deveria ter os seus trinta anos. Em coisa de quinze minutos fiquei por dentro de um recrutamento de pessoas para irem trabalhar no Canadá. A criatura estava indignada com os requisitos, pois tinha que pagar a passagem e se bancar, além de comprovar ser titular de uma poupança vultosa. “Ou seja, a pessoa tem que ter uns quinze mil”. Nossa, tá russo, viu?

Hoje foi ótimo! Uma mulher de seus quarenta e poucos estava na parada, e quando me aproximei, me olhou e já começou o papo como se já estivesse em andamento. “É muito sério esse calor. E a culpa é desses carros! A situação do Haiti, o tufão, tudo é isso.” Eu só balançava a cabeça. Após a síntese do efeito borboleta, arrematou: “E a Presidente Dilma já falou! ” Valei-me. Não deu para esperar o nexo, pois meu transporte chegou.


O fato é que tenho me sentido mais leve, menos refém de carro. Caminho pelo quarteirão, observo a paisagem e descubro lojas que nem tinha percebido e ainda conheço figuras. Por fim, como minha veia jornalística ainda encontra-se em bom estado, entre um solavanco e outro do moto, possô escrever em meu bloquinho.

domingo, 13 de outubro de 2013

O querer

Ninguém é uma ilha para conseguir sobreviver só. Muitas vezes dependemos da vontade do outro, que nem sempre se aproxima da nossa.

Então, quando as coisas não saem bem como gostaríamos ou planejamos, e isso bate forte na nossa emoção, é bem hora de nos trancarmos no banheiro, chorar o quanto precisarmos e depois de muita água no rosto, respeitarmos o querer alheio, voltarmos para nós mesmos, redimensionar os planos e seguir adiante.

Tudo isso não perdendo de vista o nosso querer, é claro. Viver em grupo, em família, não é fácil. Mas viver isolado é bem mais difícil.

sábado, 31 de agosto de 2013

Cozinhando para a sogra

Foto: receitasdecomida.com.br

*Texto escrito por Afrodite Boa Memória, e trata de simples exercício literário. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Estava eu cozinhando, como geralmente gosto de fazer nos sábados caseiros, quando a memória começou seu processo de desprendimento e vagou pelo tempo. Foi parar lá no passando, quando eu, pré-balzaquinana, assim carinhosamente chamada à época pelo marido, vivia cheia de boas intenções e ilusões para com a sogra.

Ainda não haviam rodado a trilogia "O Senhor dos Anéis", com toda sua complexidade linguística e infindáveis ardis na luta contra o mal na Terra-média. Tão pouco Jane Fonda tinha arrasado na performance de sua personagem mais real em A Sogra. O fato é que resolvi cozinhar para a mãe de meu marido.

Como leitora ávida que ainda sou, tratei de selecionar o menu. Lembro vagamente do prato principal: uma espécie de lombo (ou era filé?) regado a um molho tipo madeira. Mas o entrevero não chegou até aí, a peleja já teve início na entrada, e essa lembro com riqueza de detalhes: "Sopa Parmentier".

Encontrei a dita receita num caderno de variedades de um jornal. Achei, na minha santa inocência, que agradaria. À base de alho poró, batata inglesa e creme de leite, o negócio ficou bom mesmo. Moléstia à parte, sempre tive prenda para as artes culinárias.

Jantar posto, mesa arrumada, família reunida e lá vai a entrada, recebida por todos com ansiedade e ao som do primeiro comentário, num tom despeitado: "É, o cheiro tá bom." Era a tiranossauro entrando em cena. O segundo veio antes de eu agradecer a gentileza. "Isso é o quê?". Não era qualquer isso. Era um isssso sibilante entre língua bifurcada. E eu, meio débil, respondi.

Até aí tava fichinha. A chatice começou quando o terceiro comentário, que perdurou pelo jantar afora, foi o arremate: "Tá gostoso, mas isso (novamento o issssso) é sopa de envelope, né?". Aí foi que a ficha começou a cair para a idiota aqui, que já meio chateada respondeu: "Não, Dona fulana, é Crrrrreme Palmentier". E foi aí minha primeira aula de bifurcação de língua, com a que seria minha Mestra Pós-Doc.

Não é que a infeliz estava insinuando expressamente (se é que é possível, mas ela sempre foi ninja nessa arte) que eu havia colocado gato por lebre na entrada do jantar? Ou melhor, que eu havia comprado sopa pronta de envelope no mercado. Nada contra esse prático alimento. Eu mesma já me socorri dele em algumas vezes. Mas havia me dedicado ao jantar, feito tudo com o maior gosto para estar recebendo aquelas alfinetadas.

O problema, hoje entendo, é que a sopa realmente estava boa. E todo mundo gostou, inclusive a própria. E era demais para ela reconhecer que eu também cozinhava legal, apesar de iniciante. O jantar prosseguiu com conversas amenas, risadas e tilintar de talheres. Mas entre um assunto e outro, e até mesmo no meio de um, ela novamente questionava: "Mas está com sabor que sopa de envelope!", "Issssso é sopa de envelope...", até sacar o golpe de misericórdia: "Como é que se faz?"

Após essa iniciação, cozinhei muitas vezes para ela, embora já decorrido bastante tempo desde a última vez. Ela também cozinhou muitas vezes para mim. Tem um tempero maravilhoso. É tão boa na cozinha quanto na crítica maliciosa e na provocação. Foi minha mestra, como falei. Hoje não é mais, pois não o permito. Há o tempo de aprender e há o tempo do chega pra lá.

A quem interessar possa, segue a receita. Cautelas a quem irá servir.
SOPA PARMENTIER
INGREDIENTES:
2 ALHOS PORÓS GRANDES
1 COLHER CHÁ SAL
2 GEMAS
1 LATA CREME DE LEITE
PEDACINHOS DE PÃO TORRADOS NA MANTEIGA
MÉTODO
1 - LAVE O ALHO, CORTE EM 4 NO SENTIDO DO COMPRIMENTO E PIQUE-O. DESCASQUE E PIQUE AS BATATAS. LEVE TUDO AO FOGO EM ÁGUA COM SAL OU, QUERENDO, EM CALDO DE CARNE OU GALINHA. DEIXE COZINHAR ATÉ QUE A BATATA E O ALHO PORÓ ESTEJAM QUASE DESMANCHADOS. ESPREMA NUMA PENEIRA GROSSA OU NO PASSA PURÊ.
2 - BATA AS GEMAS COM O CREME DE LEITE NUMA TIJELINHA À PARTE. ACRESCENTE UMA CONCHA DO CALDO JÁ PRONTO PARA DISSOLVER BEM A MISTURA. JUNTE À SOPA E SIRVA COM OS PEDACINHOS DE PÃO. SE VOCÊ TIVER PÃO DORMIDO, FAÇA AS TORRADAS.  








   

sábado, 27 de abril de 2013

Uma viagem por tapetes mágicos

Eles vieram a Recife para comemorar seus quinze anos e estão colocando brilho nos olhos de crianças e adultos. Os Tapetes Contadores de Histórias surgiu no Rio de Janeiro e é formado por atores e contadores de histórias.

O material utilizado dá o tempero do encanto. Adultos e crianças, descalços, percorrem um salão cheio de tapetes que levam a uma viagem colorida e sensorial, porque em cada tapete há uma espécie de cenário de tecido que reproduz os elementos do livro. Portanto cada espaço tem o seu livro.

Montanhas, casas, nuvens, bichos e gente, tudo que há nas estórias escritas é encontrado materializado no cenário. Às vezes à mostra e em outras, escondidos em bolsos e malocas. O barato é duas pessoas por tapete, um adulto e uma criança, ou duas crianças como termina acontecendo, se reunindo para contarem e viverem as estórias que saem do livro. A criançada vai se juntando e formando grupos empolgados.

Pelo repertório dos livros passam autores brasileiros consagrados como Ana Maria Machado e Graciliano Ramos e também contos populares de diversas partes do mundo. O encantamento é geral. Quem entra no universo das cores, texturas e ideias dos Tapetes, não tem vontade de sair.  

A programação é gratuita e pode ser aproveitada na Caixa Cultural, no Marco Zero, de terça a domingo, das 12h às 20h. E as sessões de estórias acontecem aos sábados e domingos, às 16h e às 17h. A dica é chegar uns quarenta minutos antes para pegar a senha, que é muito concorrida.
A leitora Luísa, de 9 anos, após conhecer o grupo, pensa em criar seu próprio tapete.

O grupo estará até o dia 19 de maio e no próximo dia primeiro, feriado nacional, eles estarão fazendo as sessões de estórias. É programa pra criança de todas as idades e não falta vibração aos adultos que lá chegam.