quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O tempo em fatias


Recebi de um amigo, como mensagem de aniversário. Diz tudo, é Drummond, claro.

Cortar o tempo

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente
Carlos Drummond de Andrade

sábado, 23 de julho de 2011

Balé para adultos: Se tem vontade, não perca mais tempo!

Mais ou menos vinte anos. Esse é o tempo que decorreu desde o dia em que parei de dançar e parti para a luta do dia a dia. Aí vieram as faculdades, estudos para concursos, filhos, trabalho, marido, casa.
Num dia, janeiro. De repente, dezembro e um suceder de ciclos, vezes deliciosos, outras nem tanto. Vida comum de uma pessoa comum, uma filha de Deus.

Atividade física sempre foi importante. Mas e o tempo? Algumas matrículas em academias de ginástica, alguns rompantes de comprar malha nova. Caminhadas, pedaladas. A Yoga preenchia por dentro e por fora. Pilates? Não curti. E o tempo passava, na maior parte acompanhado com o sedentarismo.

Aí veio a descendência e minha filha entrou para o balé. Vieram as aulas, o espetáculo de fim de ano. Realização total! Total? No segundo ano, ela me comunica que não quer mais fazer balé. E essa notícia me atingiu em cheio, como uma lança envenenada no peito! Dramático, né? Pois assim foi.

Foi quando ouvi de uma amiga, que também tem filha que dança, e que também ama a dança, que para evitar um dia esse sofrimento, entrou para uma turma de balé para adultos. É óbvio, quando a gente tenta se realizar através do outro sempre corre o risco de resvalar na frustração.

E aí começa a parte principal da história. Em fevereiro encontrei a Academia Ângela Botelho, que investe e se dedica a um segmento cada vez mais procurado de balé adulto iniciante na cidade de Recife.

A escolha da roupa foi engraçada. Comprei tudo preto por achar que não combinava mais com o rosa das meias e saias. Muitos quilinhos a mais dos tempos de leveza, fui à minha primeira aula com a insegurança e a ansiedade de quem vai ao encontro do primeiro namorado. Muita emoção.

E o que posso dizer hoje para quem lê, é que sempre será tempo de realizar aquele sonho adormecido da juventude. Porque na verdade a juventude nunca passa quando nos mantemos vivos de espírito. O corpo pode inicialmente nem acompanhar como gostaríamos, mas somos perfeitamente adaptáveis, e quando se trata de algo para nós prazeroso, não temos idéia do quanto podemos ir além.


Aproveito para postar o vídeo de minha primeira apresentação: uma aula-apresentação realizada no Teatro Barreto Júnior, diante de uma platéia que incluiu meu filho, minha filha que voltou a dançar quando viu minha empolgação, e meu esposo, todos aplaudindo e surpresos com a revelação de uma faceta minha que não conheciam. É sempre bom surpreender, principalmente a nós mesmos.
PS - No video, sou a terceira, da esquerda para a direita, na fila de trás.

domingo, 17 de julho de 2011

Pernambuco no palco da Mostra

Com um fim de semana de alto índice pluviométrico. Assim foi o encerramento da 9ª Mostra Brasileira de Dança, realizada em Recife, de 10 a 17 de julho. Apesar das chuvas impiedosas, o evento não perdeu seu brilho. Com lançamento de livros, exposições, oficinas e apresentações diversificadas, o público não se fez de rogado e prestigiou o evento.

Afrodite se fez presente nos dia 15 e 16, respectivamente no Teatro Barreto Júnior e Teatro Luiz Mendonça – Parque Dona Lindu – e para não se furtar aos comentários, sigamos com o texto.
A idéia foi mostrar a diversidade de gêneros, estilos e forma de produção da dança, segundo Romildo Moreira, diretor teatral. Tanto que numa única noite o público assistiu Dança moderna, contemporânea, solo de samba, Dança do ventre, Ballet Clássico e Dança Afro. Todos de Pernambuco.

Destaque para as coreografias do pernambucano Black Escobar, em seus 30 anos de carreira e que assinou duas das oito apresentações da noite.  Também para a coreografia “Fuga”, do Gesttus Grupo de Dança, que através de um elenco de atitude – todas as bailarinas muito seguras – apresentaram os movimentos de uma dança contemporânea bem marcada com elásticos envolvendo os corpos. A Cia. Pernambucana de Dança do Ventre contagiou a plateia, com seu colorido vibrante, suas músicas animadas e a sensualidade que o gênero traz em si.

E quando chegou a hora do Ballet Clássico, o Ballet Maysa deu seu recado. As bailarinas Vanessa Costa e Raíssa Araújo apresentaram variações de La Bayadére e Noite de Walpurgis, ambos ballets de repertório remontados e dirigidos por Simone Monteiro. A propósito, o ballet Maysa também representará Pernambuco no 29º Festival de Dança de Joinville, que acontece de 20 a 30 de julho. A bailarina Raíssa Araújo, classificada para o evento fará apresentações. Raíssa dançará a coreografia Noite de Walpurgis, mesma apresentada em primeira mão dia 15, no Barreto Júnior. Ficamos na torcida pelo seu sucesso, que certamente virá, pois se trata de bailarina dedicada e talentosa.

Com um palco estalando de novinho, quem não fez por menos foi o Maracatu Nação Pernambuco, que apesar da tromba d’água teve a certeza de seu público fiel, que não faltou ao recém inaugurado Teatro Luiz Mendonça.

Com o espetáculo “Batuque da Nação”, montado para palco, o Nação roteirizou a cultura rítmica pernambucana e trouxe colorido e muita dança para a ciranda, côco, frevo e caboclinho, dentre tantos outros ritmos.

Quem enfrentou o dilúvio da cidade e trocou a cômoda poltrona de casa pela dúvida se haveria espetáculo foi reverenciado ao final, quando os 32 integrantes do Nação Pernambuco descem do palco e convidam o público para também dançar. E assim foi o grand finale: o Maracatu Nação em fileira no hall da entrada do teatro e o público, já pra lá de aquecido registrando a cena e dançando. Espetáculo bom é aquele que deixa gosto de “quero mais, né?”.

A Mostra, que já vai em sua 9ª edição, vai aos poucos criando novos hábitos e trazendo mais gente para o mundo da cultura e da arte, tão importante no desenvolvimento do ser. Talvez tenha faltado um pouco mais da participação de grupos de outros estados, apesar de MG, CE, PB, Portugal e Equador terem marcado presença. Mas trata-se de uma construção que só evolui...

domingo, 29 de maio de 2011

Coppélia, pelo Bolshoi, ao vivo para o mundo.

Dando continuidade ao projeto de difusão da cultura clássica do ballet, nesse domingo foi transmitido ao vivo o espetáculo Coppélia, pelo Bolshoi, para cinemas do país e do mundo. Aqui em Recife deu boa bilheteria e a platéia, muito heterogênea, parecia estar mais à vontade para aplaudir. Foi maravilhoso!
Segue um trecho da dança escocesa, desempanhada pela personagem Isvanilda, disfarçada de boneca Coppélia, todas incorporadas por Natália Osipova.

domingo, 8 de maio de 2011

Bom para a alma e para o bolso

Você gosta de ballet? Então quanto lhe custaria ir até a Rússia assistir a um espetáculo? Dependendo da localização no Mariinsky Theatre, apenas a entrada ficaria entre 118 a 462 dólares. E aí, melhor nem calcular passagem, alimento e estadia. A cultura, muitas vezes não é tão acessível assim.

Um veículo da cultura pop está disponibilizando esse acesso ao teatro russo, fazendo você se sentir dentro dele. O ballet de repertório, aquele que conta uma história e precisa de um corpo de baile para isso, veio para perto do público através do cinema. Esse recurso, já usado lá fora, chegou ao Brasil há pouco mais de um ano. Já estreou na telinha O quebra Nozes, pelo Bolshoi, transmitido ao vivo, direto de Moscou, em tecnologia de alta definição.

Agora foi a vez de Giselle, O primeiro espetáculo em 3D no mundo. Produzido pelo Theatro Mariinsky, em São Petersburgo, a estória conta os atropelos de uma camponesa que se apaixona por um “camponês” e depois descobre que ele é comprometido e é um nobre. O enredo passa pelo encantamento, pela euforia, percorre a decepção até chegar à morte, onde são vivenciados o reencontro e o perdão. Tudo regado à mais perfeita técnica que os russos mostram tão bem.

O espetáculo inicia apresentando detalhes da orquestra. E quando a cortina sobe, o espectador vai aos poucos se esquecendo de onde está, e mergulhando naquele ambiente de pura magia, que em 3D permite ver minúcias, como a sapatilha já marcada pelo uso de sua bailarina.

A grande estrela é a bailarina Natalia Osipova, que parece ter asas por saltar tão alto e com tanta leveza. Bailarina do Bolshoi, na infância dedicou-se à ginástica até levar uma séria queda e ter que se afastar dos treinos definitivamente. Os treinadores a aconselharam ir para o ballet. Formada pela Academia do Bolshoi em 2004, Natália foi aceita no corpo do balé e não parou mais de se destacar.

Seu primeiro papel como solista foi exatamente em Giselle, em 2004. Aí vieram "Les Sylphides", onde dançou a valsa, “O Quebra Nozes”, onde fez a boneca espanhola, “Dom Quixote”, com a noiva espanhola, e “Cinderela”, com a Fada do Outono, de uma extensa lista de destaques.

O fato é que por R$ 50,00 é possível adentrar nesse mundo, muitas vezes tão distante e específico. Mas à medida que a tecnologia avança, novas possibilidades de divulgação da cultura também caminham. Pois não há quem não goste do que é belo, do que busca a perfeição e do que nos faz levitar. Bravo para quem teve essa idéia! Hoje eu estive em São Petersburgo!


sábado, 30 de abril de 2011

QUEBRA DE PROTOCOLO


Ontem quebrei um protocolo daqui de casa. Temos sempre repetido aos nossos filhos que não devemos faltar às aulas e que só em último caso, como estar bem doente, é que é motivo para não ir à escola.

Como boa parte do mundo, na 5ª, 28, já estava ansiosa para não perder um minuto sequer do casamento do século. Vieram à memória as bodas de Diana, em 1981, quando, no aconchegante sofá dos meus pais, assisti ao conto de fadas. Pensei também no desenrolar dessa trágica História, cheia de desencontros e mentiras. Concluí que não tinha o direito de exigir de meus filhos a assiduidade nesse dia.

Ainda na 5ª à noite, deixei  a decisão para eles. Se quisessem poderiam ficar em casa, com a condição de acompanhar realmente esse fato histórico. E assim foi. Uma delícia! Assistimos ao show de imagens proporcionado por todas as TVs, abertas ou não. Aprendemos sobre costumes, alguns esquisitos aos nossos olhos, e pesquisamos sobre a História do Reino Unido, que em muito antecedeu a da nossa América.  Tudo regado ao fascínio que a realeza nos causa.

Também demos boas risadas com alguns modelitos de chapéus, em forma de vinil ou de alce, como falou uma conhecida. O fato é que inegavelmente foi um acontecimento belo, de um povo tradicionalista e patriota, com os seus aspectos positivos e negativos, inerentes ao ser.

E, ao que me parece, repaginado. Como promete o novo casal real, que veio injetar juventude e inovação aos protocolos tão dogmáticos. A começar pela hoje Duquesa de Cambrigde, que casou com cabelos longos e soltos. A partir de agora, diz a regra,ela  não mais poderá comer crustáceos,carregar bolsas, andar com cabelos esvoaçantes e chorar em público, além de ter que andar a dois passos de seu marido.

Penso que meus filhos, quando tiverem minha idade, lembrar-se-ão, como hoje me lembro, desse momento tão mágico e diferente que testemunhamos. Daí então seus filhos, meus netos, certamente assistirão aos próximos casamentos reais, em um sofá bem quentinho de um lar aconchegante. Porque nessa vida, alguns protocolos foram instituídos para serem quebrados. Já outros, nem tanto. 

segunda-feira, 7 de março de 2011

Renascer no carnaval

Tem épocas em que a gente quer se esbaldar. Se entrega à folia, acompanha os ritmos, afinal, o tempo foi feito para nós. Em outros momentos, nos recatamos, nos enclausuramos. E aí muitas vezes vamos ficando cada vez mais distantes de nós mesmos. Mas as noites de insônia se encarregam de avisar o fato.
E aí vem aquele ano em que decidimos timidamente participar do que antes fora euforia, sem saber exatamente o que agora será.
E como é bom saber que "ainda damos um caldo", que ainda nos esbaldamos e que o mundo também nos pertence, desde que nos pertençamos antes de tudo.
Carnaval é sempre uma boa época para renascermos.